Que tal deixarmos as crianças serem somente crianças?

8 de fevereiro de 2017



Estou sentada num café quando entra uma moça, aparentemente apressada e se dirige direto ao balcão, pedindo algo para viagem. Passa um tempo e uma mulher que estava sentada à minha frente a chama pelo nome e acena com os braços. A moça que agora estava indo pra fila do caixa a cumprimenta de lá mesmo e a mulher que continuava sentada tentou engatar um papo e o diálogo foi mais ou menos assim:
- Como estão as crianças? E o Pedro? De férias?!
De lá ela responde: - Que nada! O Pedro tá trabalhando, mais que nunca! As crianças estão na minha mãe hoje, e os meninos?
- Estão bem! Me enlouquecendo! Vamos marcar algo! Sábado te ligo, pegamos uma praia!
E a apressada respondeu: - Sábado não dá! As crianças vão para um acampamento de férias, voltam semana que vem, direto pro inglês e pro judô, porque esse ano é pegar pesado com eles! *risos*
E a simpática e insistente amiga continuou... – Sei bem! Biel vai voltar pro Espanhol esse ano de qualquer jeito! Quinta que vem vai ter teatrinho no condomínio! Leva eles!
E a outra, já saindo da loja disse: -Quinta eles começam computação! A da escola não está dando conta! Mas te ligo! Beijos!

Pude notar a grande insistência da mãe-simpática e a grande dificuldade que temos, hoje em dia, de arrumarmos tempo para...NADA! Para jogar conversa fora...para fofocar, sim! Para nos reunirmos com as crianças, com os familiares... Qual foi a última vez que sentamos com os pequenos para fazer uns rabiscos?
Como os italianos bem dizem “ Bel far niente”, traduzido: A Beleza de não se fazer nada.
Quando não estamos fazendo nada, estamos fazendo algo muito importante por nós mesmos, nos permitindo descansar, criar, incorporar, ser.
Nos permitimos apreciar, ouvir com clareza, e enxergar, não só olhar, o mundo ao nosso redor. Para que isso tudo aconteça, requer tempo; Calma; Respiração suave.
Se pra nós, adultos, já é bom, imagina para as crianças, que estão em pleno desenvolvimento, motor, neural, emocional e existencial!
Arrisco dizer que é vital.
É vital ter um refúgio nessa vida acelerada. É maravilhoso andar descalço na terra molhada. É bacana aprender Francês aos 8 anos, mas é bacana também aprender a mergulhar no mar, não quebrar com as ondas, não dar bobeira. É bacana dançar balé contemporâneo, mas é bacana também dançar sozinho no quarto, com o som alto, cantando com uma escova de cabelo de microfone! 

É legal ficar horas no telefone com a melhor amiga! Combinar um cinema numa sexta... É super importante aprender a mexer no computador, mas é mais importante ainda ter o sono em dia, muitos hormônios são liberados durante o sono, e a capacidade de aprendizado nas crianças também é estimulada. É importante também, aprender a cair e a levantar de uma bicicleta, de uma árvore. É legal ter um tablet, mas é maravilhoso ter um cachorro!!! Toda criança merece um cachorro!
É bom tirar 10 em tudo, mas não é fundamental. Fundamental mesmo é poder ser apenas criança.
Sem tantos horários e regras e cobranças. Não quer dormir ás 9hrs em ponto? Estica até ás 10 hrs, uma vez ou outra. Não mata ninguém. Mas stress mata, a longo prazo. É um veneno silencioso. Já não basta o que os espera pela frente?
A mãe-apressada deixou bem claro que as crianças não tinham tempo pra brincar, de forma alguma. Agenda lotada, sorry! Mas, acho que talvez ela tenha esquecido de reservar um tempinho para o Nada.

Hoje em dia nossas crianças acordam super cedo, vão pra escola, voltam pra casa, almoçam e vão para suas atividades. 12 hrs por dia e 5 dias na semana parece pouco para a infinidade de possibilidades que temos. Eu concordo que é importante saber falar inglês num mundo tão moderno e informatizado, que esportes são excelentes para a saúde e disciplina, que as competições são boas pois nos dão um ótimo know-how pra vida.
Mas...pera. Seu filho precisa mesmo falar Mandarim aos 6 anos de idade?
Quem sou eu, pra estar aqui, dando pitacos na sua forma de criar seus filhos né... Ninguém. Mesmo. Sou só uma mãe também, tentando fazer o melhor que posso, assim como você. Cheia de questionamentos e dúvidas a perder de vista, assim como você. Zelando para que meus filhos sejam pessoas de bem e bem sucedidas e que não passem os mesmos perrengues que eu passei...assim como você, acertei?
A gente tem essa premissa, de querer dar á eles, o que nós achamos que nos faltou. Mas talvez, a gente esteja precisando prestar mais atenção, no que tivemos. E do que gostávamos.

Eu estudei inglês, sem querer, porque meu pai me obrigava. E hoje agradeço muito por isso! E eu também agradeço muito pelo diálogo ter sido sempre permitido e estimulado lá em casa. Me lembro de falar que não gostava de educação física e que não iria fazer, e do meu pai indo ao colégio negociar alguma outra atividade que complementasse as aulas de ED.F, até que conseguimos inserir hidroginástica para as meninas! Foi um sucesso! Eu nunca gostei de balé ou jazz e certa vez meu pai me levou na academia de uma amiga dele, ele insistiu que era bom pro meu corpo, para eu saber me alongar, para eu ter disciplina e que as minhas amiguinhas faziam. Eu disse que não curtia dançar aquilo, que achava um tédio e que na verdade, meu sonho era aprender bateria! Lá fui eu! E assim fui eu pro Espanhol, pro curso de maquiagem, pro curso de modelo e passarela...e fiz disso a minha profissão por muito tempo. 

Não ganhei tanto dinheiro quanto teria ganho se tivesse sido engenheira química como meu pai e falasse alemão fluente e fosse trabalhar fora, mas, eu fui feliz. Certa vez, em uma das minhas corriqueiras crises existenciais, liguei pra ele chorando e disse “Pai desculpa. Desculpa por não ter sido nada. Por não ter te dado uma alegria...por não ter me formado, nem casado na igreja.” E ele me disse “Cara!! Como não?! A minha maior alegria é ver a sua alegria! Olha quanta coisa você fez! Me deu netas lindas, é uma mãe maravilhosa, uma filha de ouro e um ser humano com caráter ímpar (obrigada pelas palavras e pelo exagero, pai). Quer mais alegrias que isso?!”
Com os olhos cheios de lágrima, encerro esse texto, porque meu velho já não está mais aqui hoje, mas ele foi e ainda é, o melhor pai que eu poderia ter tido, porque ele me permitiu ser sempre EU mesma. Nada além ou nada menos que EU.
E ele não nos deixou fortuna ou bens, mas com certeza, deixou excelentes lições, que eu carrego pra vida.

Me lembro de ter lido muitos livros e revistas quando estava grávida, e te der formulado teorias perfeitas para se criar um bom ser humano. Tinha tudo esquematizado até... até o momento em que peguei meu bebê no colo pela primeira vez. Daquele mágico momento em diante, não me importava mais que ela falasse 3 idiomas, nem que ela fosse médica ou fizesse MBA no exterior. 

Não me importava se ela quisesse ser atriz, dançarina do ventre ou poetiza. Não me importava se ela se casaria aos 20 ou aos 36. Se ela tivesse um casal de filhos ou optasse por não ter nenhum. Não me importava se ela gostasse de meninos ou de meninas. No momento em que eu peguei a Julie no colo e olhei bem pra carinha dela, eu me lembro de ter dito baixinho “Filha, oi, é a mamãe! Tamo junta viu? Daqui até a eternidade, minha paixão desenfreada! Eu só quero que você seja FELIZ.”
E ainda hoje, 10 anos depois, eu digo pra ela sempre!
Tem que estudar! Tem que ter atividades! Tem que ter rotina, disciplina. Mas tem que ter também amizade, diversão, brincadeira, descanso, na mesma proporção.
Eu não quero filhos ricos e prontos para o COMPETITIVO mercado de trabalho. Eu quero filhos felizes e prontos para a VIDA. Prontos para criarem seus filhos felizes, e assim, sucessivamente.

Que tal nos darmos tempo?
O tempo, hoje, vale mais que qualquer ação da bolsa, que qualquer dinheiro no mundo. Deixemos que aproveitem então, porque a vida já vai cobrá-los caro demais.

Bruna Stamato
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